quarta-feira, 28 de junho de 2017




Voltar pra casa 


Te vi, te revi, desejei morar em ti. Em alguns segundos eu te reconheci, mas não pude te contar que já éramos. Sabia que tu já vivia em mim, sabia que te encontraria em alguma hora descuidada, em alguma palavra solta, talvez "indefensável". Te encontraria no gesto, no levantar de uma sobrancelha, num resquício de tristeza de um olhar, num pequeno vinco do sorriso. Seria tu quando minhas explicações emudecessem, quando eu conseguisse pronunciar Sim. Reencontrei os sins a cada encontro contigo, a cada reencontro comigo. O amor, esta quimera esperada e temida, tinha tua forma. Era teu rosto, tua voz, tuas mãos, a mulher que entornou a poesia que congelava em mim. Te vi e te vendo reencontrei a vontade de (na)morada perdida de mim. Tu és, eu sou, nós somos porque  assim queremos. 
Márcia Batista

Um comentário:

P disse...

Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
(“Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa.)