quinta-feira, 24 de maio de 2018






Foto - Bresson 


Quando morremos

Uma revoada de pássaros toma conta do jardim. Inúmeros pássaros a brincar com asas fáceis, zombar com o próprio sonho humano de voar. Era uma manhã diferente. Costumo sentar e observar a rotina dos pássaros, era nova aquela agitação toda. Eu gravei a cena, além de bela, era triste, ela continha a fotografia do meu medo. Um bando de pássaros a dar rasantes numa manhã tranquila, silenciosa e ensolarada prenunciou a volta de um câncer. Aqueles pássaros, eram muitos, cravaram em minha memória a marca da tristeza, embora seres tão lindos.   Minha mãe me olhava como se esperasse um conforto quando pronunciasse minhas palavras. Eu sabia que não poderia confortá-la, não do jeito que ela esperava. Há momentos na vida que palavras são facas afiadas penetrando no outro. Ela esperava a esperança, eu não tinha estas palavras comigo, eu só tive a crueza da realidade da imposição da doença sobre um corpo. Um câncer quando retorna traz consigo um carimbo de morte. Todos em volta morrerão um pouco todos os dias, lentamente. Assistimos a esperança agoniar, o corpo emagrecer, as crenças fraquejarem, a fé fortalecer, o amor se digladiar com o ódio, a dor ser maquiada em cafés da tarde, em colheitas de bergamota, em planos que sabemos que não nascerão. Eu prefiro usar a palavra câncer, acho que é pra ver se ela para de amedrontar meus dias. Eu penso que nada de ruim pode acontecer em um dia de sol diante de uma grama verde, um café preto, alguns bichos correndo, outros voando e minha mãe fazendo comida. É indecente a vida se extinguir diante do sol. É indecente a vida se extinguir diante do sol!! Penso que ninguém quer deixar a vida num dia de sol, que esperemos a chuva. Mas a chuva é pra morrer? Não, a chuva é pra olhar, é pra abraçar forte os amores, fazer pipoca, assistir um filme, abrir um vinho. Todos os dias não seriam dias de vinho? É difícil achar uma temperatura, uma luz certa pra deixar a vida. Sou o tipo de pessoa que diante das coisas duras vou ali fora plantar flores, construo um microuniverso de beleza onde o entorno é caos. Já plantei, junto à minha mãe, muitas flores por aqui, não sei os nomes, não achei muito importante saber seus nomes, as chamo de antimorte. É bom ver algo se enraizar, que não seja o câncer, e nascer, crescer, ser belo. Uma flor é silenciosa e bela, assim como a beleza pode ser, sem alardes. Algo belo é belo, não necessita apresentar-se como belo, pois já o é. Meu pai tem sido silenciosamente forte, grandioso em agarrar a vida. Aprendi que a vida que ele tanto quer é o sol debaixo da árvore, é observar as vacas comendo, as ovelhas crescendo, as galinhas colocando ovos e os cachorros acompanhando tudo isso, ou apenas isso. Seja como for ele levanta todas as manhãs e segue pra ver se o mundo segue igual, a gente precisa de pontos de ancoragem. Eu vou observando ele e o câncer, ele e a vida, ele e o corpo, ele e o sol, ele e a preocupação em alimentar as ovelhas ( não entendo a lógica de cuidar e comer, mas ...) . Vou observando um pai que nasceu na morte, mas nasceu. Este parto foi meu, pari este pai que nunca esteve comigo e que talvez não imaginasse que estaria agora com ele, mas estou e estarei. Não há outro lugar para estar. Penso que nada de ruim pode acontecer num dia de sol, penso que penso tão equivocadamente... Penso que posso impedir a morte, que ela é alérgica ao sol, que não se atreveria a levá-lo num dia de sol comigo aqui. Olho meu pai e penso que palavras estarão trancadas ali. Sempre foi mudo, silencioso, intransponível. Desta mudez eu nasci com muita fome e encantamento de palavras. Hoje já não espero palavras, somente que ele seja forte pra enfrentar o que rouba seu corpo. Imagino que meu pai tenha medo de pronunciar palavras e isso as torne real, ele tem razão. A palavra falada é a materialidade do pensamento, ele tem medo de seus pensamentos, ele tem medo da morte, como todos nós. Gostaria de poder dizer que ele não precisa ter medo, mas seria tão mentiroso pedir a alguém que não tema o desconhecido, o inapreensível. Sigo aqui, entre as coisas que lhes são caras e belas, entre ovelhas, árvores, gatos, cachorros e céus estrelados. Amores que não sabia que vinham dele, mas percebo não em palavras, mas nos seus olhos, que são o motor da vida que pulsa nele e que acolho no melhor que há em mim.