sábado, 4 de maio de 2019

Foto: Dorothea Lange


E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.
Clarice Lispector 




terça-feira, 16 de abril de 2019


Lídia
Uma alma em(canto)



Eu assim... Vejo-te de tão perto, longe.
Sei que parte cada dia um pouco, parte tão lindamente, sorrindo pra vida. Há anos te olho, de tão longe, perto, de tão perto, longe.  Tuas janelas verdes, vivas, abertas em constante ventania. Teus olhos nunca choram, agradecem a vida... Está tudo certo. Eu, de tão perto , de tantos erros não entendo teu certo, mas tu sorri. Sorri com o som da vida, tua barriga ri, gargalha a cada mínima faísca que te ascende, acende, ascende. Vejo teu corpo fragilizar e tua alma voar, tua transformação pássaro. A gente ri como duas velhas amigas de escola, tu com teus quase um século me chama de jovem, eu com quase meio século queria ter a sabedoria da tua poesia. Saímos e tu para em cada flor, eu reclamo, preocupa-me o entorno, mas sorrio por dentro com teus passos lentos e tua alma veloz. Sabe olhar o que importa, nunca perde uma piada, uma foto, um assunto ou gíria nova. Cuido de ti querendo ter o dom de te eternizar, pois tu já te eternizaste em mim. A gente combina de vir avisar a outra se existe outro lado, outra vida, outra forma de existir. Tu tens medo de fantasma, eu prometo que não virei num lençol branco, mas nos teus sonhos. Tu me diz que não vai com a morte, que terão que te levar a força, a mando dos filhos. Eu rio triste, a gente sabe que a morte não pede licença, mas digo que tu és eterna. A gente sabe e não sabe, no fundo todos cremos um pouco no eterno. Contigo eu aprendi um pouco mais de MPB, da Clara Nunes, da Ivone Lara. Comigo tu começou a adorar Felipe Catto, Jean Melgar, Ilse Lamper, rodas de samba. Compartilhamos tantas músicas olhando o gato amanhecer na janela do lado,  as caturritas migrarem. Já me encantei tantas vezes ao te ouvir cantar, já cantou tantas musicas que te pedi, mesmo não querendo, sempre canta. Te coloquei mil apelidos, tu ri de todos , tu nunca perde oportunidade do riso, tu nunca perde.  Já te vi doente e quis estar longe porque conheço demais teus sinais, a mudança dos teus olhos, mas penso que a única coisa que posso te dar é a presença. Eu fico, mas eu que não sei rezar me pego rezando por ti. Descobri que o ser humano é sempre criança, só depende de ter um lugar pra brincar. Não vemos nossa pele enrugar, nossas pernas falharem, nossa coluna curvar, nossas mãos perdendo a força e nossa Memória sucumbir.  A finitude é irrealizável, assim que tem que ser.
Vejo o tempo te surpreender diante do espelho, não crê que a vida foi tao rápida, pois a menina em ti ainda dança, ainda reencontra teus irmãos num infância cheia de vida e teu pai com a maquina fotográfica em passeios familiares. Pergunto dos teus sonhos, dos teus medos, dos teus gostos. Já te vi dançando na sala e eu gargalhava com tua beleza de ser criança de um século. Penso que nunca crescemos e buscamos a leveza da dança despretensiosa, do erro certo, da felicidade simples. Nos já demos comida aos pássaros de manha cedo, fomos advertidas pelo condomínio, não se pode alimentar os pássaros para não “sujar”o parapeito vizinho. Eu detestei a vizinha por isso, tu só disse que ela era uma infeliz e lamentou os pássaros não chegarem mais na janela. Eu sigo detestando a vizinha, talvez um dia consiga apreender tua sabedoria, talvez...
 Tu oras no teu silêncio, te ancora na tua fé. Eu creio em ti, senhora da vida, o verdadeiro milagre. Repete sempre que não se arrepende de nada sem ter noção da grandeza que é isso. Viveria tua vida tal qual foi vivida, és uma nietzschiana sem saber que o és. Tua sabedoria de não se saber sábia. 
Eu assim vejo a vida acontecendo em ti todos os dias. É tão longe te imaginar longe, então pego cada pedaço de ti e vou costurando em mim para que nunca partas, para que nunca me deixe sem ti. Cada passo teu me faz rever a vida, me faz pegar teus pés a tentar um novo caminho, me faz te querer reagindo contra o tempo. Eu sei, o tempo não negocia, mas eu humanamente te quero aqui, um pouco mais no meu tempo, sendo tu, me ensinando a ser Lídia, a ser esta bailarina da vida que apenas sorri porque sabe simplesmente a complexidade do existir. 

Amor, Lídia...


sábado, 23 de fevereiro de 2019

Lamento Sertanejo



Lamento Sertanejo
Dominguinhos


Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga e do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado

Por ser de lá
Na certa, por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão, boiada caminhando a esmo

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Congresso Nacional do Medo



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe 
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Carlos Drummond de Andrade 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Ausências




...
...
...
Ausência palavra pedra. Pedra, pedreira na gente. Bate-se nela, bate-se na gente batendo nela.  Ausência palavra sozinha. Quarto chaveado escuro. A ausência ocupa tanto espaço. Dentro dela mora tanta gente, tantos cheiros, tanto amor que não vingou, tantos mortos, tantos vivos que precisamos matar para não morrer. Seguimos, disfarçamos bem nossa falta de presenças. Ausência é ruim até de falar, palavra é o corpo do pensamento, corpo tão violentado, tão desencontrado, tão falido. Ausentes olhares, ausentes corpos com sentidos, ausentes compaixões , ausentes compreensões , ausentes esperanças, ausentes ilusões a dar horizontes. Estamos lotados de ausências , despencando em nossas palavras que não encontram ancoragem. Ausência pedra, ausência fogo sem ar, ausencia frio, ausência desamor, ausência grito calado. Ausência indiferença,  ausência espelho quebrado a nos fazer, ao mesmo tempo, assassinos e os próprios cães assassinados
à luz de um dia de primavera , num cidade qualquer cheia de ausentes.

Márcia Batista




terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Al lado del camino

Camino
Fito Páez


Me gusta estar a un lado del camino
Fumando el humo mientras todo pasa
Me gusta abrir los ojos y estar vivo
Tener que vérmelas con la resaca
Entonces navegar se hace preciso
En barcos que se estrellen en la nada
Vivir atormentado de sentido
Creo que ésta, sí, es la parte mas pesada

En tiempos donde nadie escucha a nadie
En tiempos donde todos contra todos
En tiempos egístas y mezquinos
En tiempos donde siempre estamos solos
Habrá que declararse incompetente
En todas las materias de mercado
Habrá que declararse un inocente
O habrá que ser abyecto y desalmado
Yo ya no pertenezco a ningún istmo
Me considero vivo y enterrado
Yo puse las canciones en tu walkman
El tiempo a mi me puso en otro lado
Tendré que hacer lo que es y no debido
Tendré que hacer el bien y hacer el daño
No olvides que el perdón es lo divino
Y errar a veces suele ser humano

No es bueno hacerse de enemigos
Que no estén a la altura del conflicto
Que piensan que hacen una guerra
Y se hacen pis encima como chicos
Que rondan por siniestros ministerios
Haciendo la parodia del artista
Que todo lo que brilla en este mundo
Tan sólo les da caspa y les da envidia
Yo era un pibe triste y encantado
De beatles, caña legui y maravillas
Los libros, las canciones y los pianos
El cine, las traiciones, los enigmas
Mi padre, la cerveza, las pastillas los misterios el whiskymalo
Los óleos, el amor, los escenarios
El hambre, el frío, el crimen, el dinero y mis 10 tías
Me hicieron este hombre enreverado

Si alguna vez me cruzas por la calle
Regálame tu beso y no te aflijas
Si ves que estoy pensando en otra cosa
No es nada malo, es que pasó una brisa
La brisa de la muerte enamorada
Que ronda como un ángel asesino
Mas no te asustes siempre se me pasa
Es solo la intuición de mi destino

Me gusta estar a un lado del camino
Fumando el humo mientras todo pasa
Me gusta regresarme del olvido
Para acordarme en sueños de mi casa
Del chico que jugaba a la pelota
Del 49585
Nadie nos prometió un jardín de rosas
Hablamos del peligro de estar vivo
No vine a divertir a tu familia
Mientras el mundo se cae a pedazos
Me gusta estar al lado del camino
Me gusta sentirte a mi lado
Me gusta estar al lado del camino
Dormirte cada noche entre mis brazos
Al lado del camino
Al lado del camino
Al lado del camino
Es mas entretenido y mas barato
Al lado del camino

domingo, 2 de dezembro de 2018

A hora da estrela


"Então  eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente - é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada por nordestinas que andam por aí aos montes."
Macabea 

A hora da estrela/Clarice Lispector