quinta-feira, 19 de julho de 2012

Dedicatória

Delicado curta inspirado e concretizado em Manoel de Barros.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Tudo que não invento é falso


Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante."

Manoel de Barros

A Palavra

Foto: Robert Doisneau

A palavra é uma roupa que a gente veste.
Uns usam palavras curtas. Outros usam roupa em excesso.
Existem, os que jogam palavra fora. Pior são os que usam em desalinho.
Uns usam palavras raras. Poucos ostentam palavras caras.
Tem quem nunca troca. Tem quem usa a dos outros.
A maioria não sabe o que veste. Alguns sabem e fingem que não.
E tem quem nunca usa a roupa certa pra ocasião.
Tem os que se ajeitam bem com poucas peças.
Outros se enrolam em um vocabulário de muitas.
Tem gente que estraga tudo que usa. E você?
Com quais palavras você se despe?

Viviane Mosé

domingo, 15 de julho de 2012


"Toda a experiência humana é marcada por afetos. Nietzsche entendeu que a razão poderia ser o mais potente dos afetos, o que significa que nos enganamos ao pensar na frieza da razão, que, em seu imo, move o mundo apaixonadamente". 

Márcia Tiburi

sábado, 14 de julho de 2012

Les Feuilles Mortes


 Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes
 Des jours heureux où nous étions amis.
 En ce temps-là la vie était plus belle,
 Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
 Les feuilles mortes se ramassent à la pelle.
 Tu vois, je n'ai pas oublié...
 Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
 Les souvenirs et les regrets aussi
 Et le vent du nord les emporte
 Dans la nuit froide de l'oubli.
 Tu vois, je n'ai pas oublié
 La chanson que tu me chantais.

 C'est une chanson qui nous ressemble.
 Toi, tu m'aimais et je t'aimais
 Et nous vivions tous deux ensemble,
 Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
 Mais la vie sépare ceux qui s'aiment,
 Tout doucement, sans faire de bruit
 Et la mer efface sur le sable
 Les pas des amants désunis.

 Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
 Les souvenirs et les regrets aussi
 Mais mon amour silencieux et fidèle
 Sourit toujours et remercie la vie.
 Je t'aimais tant, tu étais si jolie.
 Comment veux-tu que je t'oublie ?
 En ce temps-là, la vie était plus belle
 Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
 Tu étais ma plus douce amie
 Mais je n'ai que faire des regrets
 Et la chanson que tu chantais,
 Toujours, toujours je l'entendrai !

Desintegração


 Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida. Sei que precisarei tomar cuidado para não usar superficialmente uma nova terceira perna que em mim renasce fácil como capim, e a essa perna protetora chamar de uma verdade Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E - e se a realidade é mesmo que nada existiu?! Quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? O resto não existiu. Quem sabe nada existiu! Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa - a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes - então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada.
A vida humanizada. Eu havia humanizado demais a vida.

Clarice Lispector - A Paixão segundo G.H

Leonel Pé-de-Vento


Belo, sensível e criativo.

Curta-metragem em animação, 15 minutos, 2006. Direção de Jair Giacomini