terça-feira, 3 de setembro de 2013

Ar raro efeito



Momento de abalos, estalos, espelhos estilhaçando diretamente carótidas que já não carregavam mais oxigênio no sangue, como um desfibrilador a buscar a vida. 
O oxigênio é a arte que mora dentro da gente, a parte impensável até que se fique sem ele por alguns segundos. 
Tão certos de sermos sólidos e tão ossos, somos líquidos e ares, e como nos falta ar... Armas, árvores, artesanias, arritmias.
 Tempo de secura de embalos, pois não há sonhos que  residam só nos dias. 
É preciso deitar e dormir com eles, e poder reconhecê-los ao acordar, mas só desperta aquele que dormiu, que se rendeu, carne e mente, ao instante de não existir.

Márcia Batista 

domingo, 1 de setembro de 2013

Monólogo das Mãos



Monólogo das Mãos

Para que servem as mãos?



As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever......



As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário;

múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;

foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;
com as mãos David agitou a funda que matou Golias;
as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena;
Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;
os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte! 



Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.



A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda; 

o operário construir e o burguês destruir;

o bom amparar e o justo punir; 
o amante acariciar e o ladrão roubar; 
o honesto trabalhar e o viciado jogar. 



Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! 



Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia! 



As mãos fazem os salva-vidas e os canhões;

os remédios e os venenos; 

os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva. 


Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.



Os olhos dos cegos são as mãos. 



As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; 

no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.



O autor do "Homo Rebus" lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; 

a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem. 



Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.



A mão aberta, acariciando, mostra a bondade;

fechada e levantada mostra a força e o poder;

empunha a espada a pena e a cruz! 


Modela os mármores e os bronzes;

da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.



Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; 

doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.



O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade. 



O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; 

Jesus abençoava com as mãos; 

as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes. 


Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. 



Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.



E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.



Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.



E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.



E as mãos dos amigos nos conduzem... 

E as mãos dos coveiros nos enterram!



BIBI FERREIRA IN CONCERT III

sábado, 6 de abril de 2013

Adiamento





   Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
   Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
   E assim será possível; mas hoje não...
   Não, hoje nada; hoje não posso.
   A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
   O sono da minha vida real, intercalado,
   O cansaço antecipado e infinito,
   Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
   Esta espécie de alma...
   Só depois de amanhã...
   Hoje quero preparar-me,
   Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
   Ele é que é decisivo.
   Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
   Amanhã é o dia dos planos.
   Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
   Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
   Tenho vontade de chorar,
   Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

   Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
   Só depois de amanhã...
   Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
   Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
   Depois de amanhã serei outro,
   A minha vida triunfar-se-á,
   Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
   Serão convocadas por um edital...
   Mas por um edital de amanhã...
   Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
   Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
   Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
   Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
   Antes, não...
   Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
   Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
   Só depois de amanhã...
   Tenho sono como o frio de um cão vadio.
   Tenho muito sono.
   Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
   Sim, talvez só depois de amanhã...

   O porvir...

   Sim, o porvir...
Álvaro de Campos

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pensando




 Palavras pretendem dissipar o caos que frequentemente toma conta da gente. É preciso por vezes dispensar palavras e tocar o mais profundo, a pele. É dela tudo que a memória pode alcançar e que a língua tenta incansavelmente traduzir. Eu gostaria de comunicação "poro" e falando o "poronês"poder trocar de sentido com o outro que desesperadamente busca um pouco de compreensão. Eu sinto medo e a cada um que verbalizo medo, meu medo já se transformou na ideia de medo que cada um tem. E assim se alarga, se encolhe, vira pânico, vira medo de fantasmas, de baratas, de tsunamis,  de doenças, de sair sem maquiagem. Os medos adultos são mais complexos, guardam em si a vergonha da fraqueza, mas eu penso que sentir medo é pra quem sabe ser forte. O amor é o maestro do medo, então queremos a vida para viver nossos amores, sem eles o existir seria de plástico, sem cheiro, sem cor, sem som de risadas conhecidas e vozes que fazem a gente ser atemporal. Sem eles não haveria para quê voltar,  a gente sempre volta por amor. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Dia que balança


E a vida balança... Embala, repara, 
Vai, volta, cai, solta...Dança.
E a vida balança...Pesa, 
junta, separa...Lança. 
E a vida  balanço...Pensa, "despensa", dispensa, 
Avança, recua, estica, esmaga.
Trapézio de tempo,
Vento do salto. 

Márcia Batista
















sábado, 27 de outubro de 2012

Apanhador de Desperdícios



Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosta das palavras
fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros