Uma
revoada de pássaros toma conta do jardim. Inúmeros pássaros a brincar com asas
fáceis, zombar com o próprio sonho humano de voar. Era uma manhã diferente. Costumo sentar e observar a rotina dos pássaros, era nova aquela agitação toda.
Eu gravei a cena, além de bela, era triste, ela continha a fotografia do meu
medo. Um bando de pássaros a dar rasantes numa manhã tranquila, silenciosa e
ensolarada prenunciou a volta de um câncer. Aqueles pássaros, eram muitos,
cravaram em minha memória a marca da tristeza, embora seres tão lindos. Minha mãe
me olhava como se esperasse um conforto quando pronunciasse minhas palavras. Eu
sabia que não poderia confortá-la, não do jeito que ela esperava. Há momentos
na vida que palavras são facas afiadas penetrando no outro. Ela esperava a
esperança, eu não tinha estas palavras comigo, eu só tive a crueza da realidade
da imposição da doença sobre um corpo. Um câncer quando retorna traz consigo um
carimbo de morte. Todos em volta morrerão um pouco todos os dias, lentamente. Assistimos
a esperança agoniar, o corpo emagrecer, as crenças fraquejarem, a fé
fortalecer, o amor se digladiar com o ódio, a dor ser maquiada em cafés da
tarde, em colheitas de bergamota, em planos que sabemos que não nascerão. Eu
prefiro usar a palavra câncer, acho que é pra ver se ela para de amedrontar
meus dias. Eu penso que nada de ruim pode acontecer em um dia de sol diante de
uma grama verde, um café preto, alguns bichos correndo, outros voando e minha
mãe fazendo comida. É indecente a vida se extinguir diante do sol. É indecente
a vida se extinguir diante do sol!! Penso que ninguém quer deixar a vida num
dia de sol, que esperemos a chuva. Mas a chuva é pra morrer? Não, a chuva é pra
olhar, é pra abraçar forte os amores, fazer pipoca, assistir um filme, abrir um
vinho. Todos os dias não seriam dias de vinho? É difícil achar uma temperatura,
uma luz certa pra deixar a vida. Sou o tipo de pessoa que diante das coisas
duras vou ali fora plantar flores, construo um microuniverso de beleza onde o
entorno é caos. Já plantei, junto à minha mãe, muitas flores por aqui, não sei
os nomes, não achei muito importante saber seus nomes, as chamo de antimorte.
É bom ver algo se enraizar, que não seja o câncer, e nascer, crescer, ser belo.
Uma flor é silenciosa e bela, assim como a beleza pode ser, sem alardes. Algo belo
é belo, não necessita apresentar-se como belo, pois já o é. Meu pai tem sido silenciosamente
forte, grandioso em agarrar a vida. Aprendi que a vida que ele tanto quer é o
sol debaixo da árvore, é observar as vacas comendo, as ovelhas crescendo, as
galinhas colocando ovos e os cachorros acompanhando tudo isso, ou apenas isso.
Seja como for ele levanta todas as manhãs e segue pra ver se o mundo segue
igual, a gente precisa de pontos de ancoragem. Eu vou observando ele e o
câncer, ele e a vida, ele e o corpo, ele e o sol, ele e a preocupação em
alimentar as ovelhas ( não entendo a lógica de cuidar e comer, mas ...) . Vou
observando um pai que nasceu na morte, mas nasceu. Este parto foi meu, pari
este pai que nunca esteve comigo e que talvez não imaginasse que estaria agora
com ele, mas estou e estarei. Não há outro lugar para estar. Penso que nada de
ruim pode acontecer num dia de sol, penso que penso tão equivocadamente...
Penso que posso impedir a morte, que ela é alérgica ao sol, que não se
atreveria a levá-lo num dia de sol comigo aqui. Olho meu pai e penso que palavras estarão trancadas ali. Sempre foi mudo, silencioso, intransponível. Desta mudez eu nasci com muita fome e encantamento de palavras. Hoje já não espero palavras, somente que ele seja forte pra enfrentar o que rouba seu corpo. Imagino que meu pai tenha medo de pronunciar palavras e isso as torne real, ele tem razão. A palavra falada é a materialidade do pensamento, ele tem medo de seus pensamentos, ele tem medo da morte, como todos nós. Gostaria de poder dizer que ele não precisa ter medo, mas seria tão mentiroso pedir a alguém que não tema o desconhecido, o inapreensível. Sigo aqui, entre as coisas que lhes são caras e belas, entre ovelhas, árvores, gatos, cachorros e céus estrelados. Amores que não sabia que vinham dele, mas percebo não em palavras, mas nos seus olhos, que são o motor da vida que pulsa nele e que acolho no melhor que há em mim.
quinta-feira, 24 de maio de 2018
sexta-feira, 14 de julho de 2017
Foto: Edward Hopper
Sobre viver...
O ser humano precisa
ser afetado, somente assim pode-se fazer o humano. Minúsculas coisas
geram verdadeiras hecatombes. O bater das asas das borboletas, os cascos de um cavalo, a erupção do vulcão, a queda de uma estrela, o nascimento de uma flor...O olhar agarra e abisma, agarra ou abismo. É assim, é grande ou pequeno de acordo com cada bússola, com a singularidade de cada história.
Fui alfabetizada em uma
pequenina escola do campo. Não sei dizer o motivo, mas tive mais de uma
professora, duas no mínimo, num período de um ano. Chamava-se Gracinha aquela
pessoa de cabelos crespos, olhar triste e boca torta. Corria um boato que ela
teria tido paralisia infantil. Linda aos
meus olhos, eu não me enquadrava nos padrões que regiam a boniteza ou a feiura.
Gracinha era linda, linda da onde eu a via. Meu encantamento por aquele mundo das
palavras, onde as guardiãs eram aquelas mulheres, a transformavam em seres
mágicos. Não me lembro de Gracinha ter me ensinado algo, mas a imagem dela é
tão viva como se eu estivesse no ano de 1982 e um afeto bom me percorre ao relembrá-la. Minha outra professora chamava-se Neli. Uma senhora
muitíssimo magra, cabelos curtos e negros e um óculos na ponta do nariz que eu
adorava. Neli constrangia-me publicamente com seus elogios. Lá, naquela pequena
idade eu já questionava a justiça daqueles elogios frente a meus colegas que
tinham dificuldades. Eu própria achava que tinha dificuldades e não merecia
elogios daquele porte. Neli me elogiava e eu queria muito ser invisível quando
isso acontecia, mas eu queria mesmo era levar a Neli para casa e ficar olhando
aquele rosto bondoso que exalava paciência e aconchego. Acho que foi ela que me
ensinou a ler. Como eu gostaria de dar um abraço na Neli e dizer obrigada. Só
sei que Neli é mãe de Jerry e eu pensava que ele gostava muito de ser filho de
alguém que tá lá no quadro ligando as letras e fabricando PALAVRAS. Palavras,
palavras... Sempre tive muita fome de palavras, de frases, de histórias, de
narrativas. Vim de um lugar mudo, mas a escola me devolveu a língua. Lembrei
que nesta escola a turma da Mônica foi desenhada pela professora de artes, uma
menina muito jovem que mancava da perna. Eu a achava um ser divino por isso e
por seus cabelos cacheados dentro de uma touca. Troquei de escola porque fomos
morar na cidade, era tudo tão grande. Minha mãe me deixou na escola nova e uma
senhora muito magra e muito alta, na minha lembrança ao menos, me deu sua mão
magra e ossuda e disse: agora é comigo. O nome dela era Brasília, um mistério
pra mim aquela mulher ter nome de carro. Na época era a associação que pude
fazer, hoje eu acho que não poderia ter sido melhor. Brasília me entregou para
minha nova professora, a Augusta. Augusta era linda, vivamente linda. Tinha
sempre um sorriso no rosto e olhos que gargalhavam. Ali, no encontro com aquela
mulher, eu entendi que eu procurava a felicidade, que eu gostava muito de gente
que ri e sorri e se encanta. Na minha casa se encantar era proibido, sorrir era
meio obsceno, era constrangedor. Aquela mulher cheia de vida e que cantava me
encantou e me jogou na poesia. O encontro com Augusta me fez sentir menos
estrangeira na minha pele, no meu encantamento pelo lúdico. Afinal o mundo
tinha mesmo uma passagem secreta para um mundo de cor. Augusta me permitiu ver
as cores da vida em músicas cantadas em roda. Ali eu não senti que era
vergonhoso emocionar-se com aquilo que eu nem entendia, mas era a arte. Eu entendi
o poder da arte em forma de música aos sete anos de idade. Naquela sala daquela
escola que tinha nome de coronel eu quase entendi o sentido da arte na vida. Augusta
foi um meteoro na minha pequena existência. Tempos depois, alguns dez anos
talvez, eu encontrei a filha de augusta num curso técnico, coisa de adulto, e vi a mesma criança reagindo. "Gente, esta é
filha de Augusta, que coisa maravilhosa conviver com aquele sorriso."Bom, ela
nunca soube disto. A Mirela nunca soube que eu era uma fã de sua mãe. Fui
adulta e, por consequência, contida, e não revelei isso.
Este relato certamente
é sobre pessoas que te tocam na vida e vão te levando por caminhos, que vão
abrindo pequenas brechas pra gente poder respirar um pouco. Pessoas que deixam
uma palavra, um olhar, um pedaço de luz. Será que a luz pode ter pedaços? Pessoas
humanizam pessoas, pessoas recontam pessoas, pessoas devolvem as pessoas da
gente. Grandes coisas disfarçadas de pequenas nos dão a mão todos os dias e nos
fazem caminhar. Na sétima série eu encontrei a “Santa”, assim mesmo, ela se
chamava Santa e dava aula de geografia. Santa me ensinou sobre localizações
muito mais do que imagina. Santa ensinou sobre os tamanhos do mundo e das
pessoas. Ela me olhou e me olhando me fez ser. Naquele tempo eu sentia tudo
desmontado, perdido, carecia muito de bússola e mapas. Foi ela, minha
professora de geografia da sétima série, que fez com que eu acreditasse que
havia a vida que eu via. Sem saber ela me empurrou pra vida, me deu
coordenadas e uma mapa do mundo. Santa foi a geografia mais grandiosa que eu
poderia encontrar. Passados muitos anos nós nos falamos ao telefone, eu não
pude dizer exatamente tudo isso. Quantas frases, palavras e textos ficam
omitidos por ai. Eu fico imaginando um arquivo secreto e paralelo pra tudo que
sobra, ou se oculta, nos encontros da vida. A santa teria um arquivo secreto
imenso, ela deveria saber que salvou esta pessoa aqui, esta pessoa que ela deu
a mão e a fé para que voasse. Entre meridianos e paralelos, planos, relevos e
graus ela ensinou as facetas da palavra "continente".
E assim a vida se faz,
em pequenos toques pelo caminho, em olhares que te lançam uma nova forma possível
de existir. Há dias em que um pequeno diálogo te salva, uma pequena sensação
que o ser que está a tua frente sabe da humanidade em ti. Dias destes uma
atendente da eptc, penso que percebeu minha tristeza, disse ao me atender: que
dia lindo, né? Eu imediatamente tentei me recompor, não sou de desperdiçar
pessoas que notam os dias, e respondi que não havia notado ainda, que estava
meio atucanada. Ela, numa cumplicidade acolhedora, respondeu que nada deveria
impedir a constatação de um dia lindo. Eu sorri e me dirigi ao atendente que me
aguardava pra ver minha multa. Ando pecando por excesso de velocidade, acho até
coerente com meus dias, é tudo muito curto, preciso ser rápida. A multa poderia ser metafórica, mas não foi. A vida é caótica mesmo quando parece não ser, a suspensão momentânea
do caos está no encontro, nos afetos que vão tecendo os sentidos da existência,
sem saber dos contornos que se criam. Viver é sempre sobre afetos possíveis e impossíveis, ambos gritam sobre quem somos ou sobre quem deixamos de ser.
Márcia Batista
Márcia Batista
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Restos e rastros
Restos e rastros
De que somos feitos? De tempos. Antônio Cândido disse: o tempo é o tecido da nossa vida. Nietzsche - reverência e gratidão a sua passagem pelo mundo - falou sobre o eterno retorno. Aceitaria tua vida do jeito exato que aconteceu? Bem e mal, angustia e prazer, numa alternância que nunca finda? Forças conflitantes que se repetem e se repetem. A cada mínimo instante da existência viver em questionamento sobre o querer, sobre o ser. "quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?". Quero? Quero ser o mesmo de ontem? Ou o tempo, invisível e concreto, já me transformou em outro que já não sabe saber sobre o outro que era ontem? O tempo, sem dúvida, sabe ser invisível e palpável, duas formas de existência contraditórias. Mas não se pode negar que ele é, o tempo, o tecido das nossas vidas. Quando tento algum entendimento sobre a loucura de existir, este senhor é sempre absoluto. É dele que somos feitos. Ele nos levará até a morte, delicadamente até o confronto final. Pra que tudo isso? Melhor fazemos de conta que ela não existe para suportar a enlouquecedora ideia de não mais existirmos.
Uma rosa morre no frasco que outrora conteve suco. Morre a rosa no seu tempo de rosa sem raiz . SobreVIVER. Vive o frasco que virou vaso. O suco foi-se em alguma memória de quem lembrou de mim pelo gosto por este frasco. A rosa foi um pedaço de tempo recente de um ato de delicadeza. Prefiro sempre as flores que vem com raízes, minha cisma de brincar de guardar o tempo. Escuto a trilha de “into the wild”. Um pedaço de tempo que guardo em mim. Alguém que passou e nem faz ideia do que deixou. Gosto de guardar rastros de amores que se dissipam antes de serem amores . Deixam músicas, ideias, sorrisos, questões, trilhas sonoras, filmes incríveis... e se vão. Assim é o tempo. Uma multidões de agoras e urgências. De Medusas que se transformam em espelhos possíveis. Que bom seria se conseguíssemos, como os pássaros, viver o voo perspectivista. De longe e do alto enxergamos melhor e temos noção do nosso tamanho e de nosso lugar no universo. Engrenagens. “In vino a veritas”, já disse outro tempo pra mim. A verdade no vinho. E vivemos a verdade daquele instante, não menos verdade porque durou um instante. Que belas verdades tem a duração de uma noite, de uma música, de algumas entregas em mesa de bar. Que lindo pode ser um momento, e que sábio saber deixar viver o tempo somente de uma respiração, de uma confissão, de ser mais leve por um breve tempo. De novo Ele, absoluto em sua existência.Amores nos destituem da ideia da morte. Onde há amor a eternidade se estabelece. Então temos asas, forças e eternidade. A eternidade também pode durar uma noite e cá estamos instaurados na mortalidade novamente. Como é difícil viver neste enlouquecedor vivo-morto-vivo-morto-morto-morto-vivo-vivo-morto... Era só pra ser uma brincadeira da infância, mas descobri que é uma metáfora da vida. Faz frio aqui, no sul a norte de mim. Olho o aqueceDOR e penso como ele é indispensável hoje. Lacan? Palavras não podem ser apenas palavras? Acho que nunca mais serão. Pra mim elas tem vida própria. Riem, dançam e debocham de minhas escolhas.Eu amo minhas três cachorras. O que tem a ver com isso? Tudo. Nelas o tempo vive intensamente. Viverão tão pouco comparado a quantidade de amor que sinto. Tudo é tão intenso e cheio de cor. Fico pensando como é a experiência de só viver o amor, desde que despertam até caírem lindamente num sono cheio de paz e sem mágoas. Fico querendo viver na cabeça delas um mínimo de tempo, pra viver este jeito de ser. Certamente aqui cabe a sonhada experiência de eternidade. É bom ser eterno neste tempo que sei que findará. Meu amor nos lança na posteridade.
Então a vida é feita de quê? De restos, rastros, pequenas e grandes memórias que vamos construindo cotidianamente. Cenas, cheiros, livros, frases , palavras, imagens... fotografias inimagináveis que somente a retina guardou. De tempos. Tempos que necessitam ser escolhidos a todo instante. De horas que se dissolvem na alegria ou se alargam na tristeza. Ainda assim horas que precisam ser acolhidas como parte de nossa carne, de nosso ser. Restos e rastros do tempo que somos, do que somos no tempo.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Distração?
Será que em algum momento estamos distraídos? Saio para resolver uma chatice cotidiana, uma revolta eletrônica. Não ligo o rádio, já ando achando o silêncio um tanto barulhento. Sinal vermelho, muitas pessoas cruzando a rua. Imediatamente começo a imaginar quem são os transeuntes. Faço uma história para cada um que passa em minha frente. O tempo parece que suspendeu. Cronos deixou-me brincar. Fico imaginando que questões de vida estariam ali caminhando. Duas jovens meninas gesticulam animadamente. Penso na fé em mudar o mundo e a falta de pressa que temos em determinada época. Podemos tudo, Sinto saudade disso. Olho para um homem jovem com barba grande e questiono a diferença dos abalos de gênero. Qual angústia, se há, habitaria naquele homem que atravessa rapidamente a rua. Seu olhar está longe, talvez já se imaginasse chegando em algum lugar. Hoje é sexta-feira, dia de encontros pra uma parcela considerável dos humanos. Eu não me enquadro no percentual. Penso em resolver o problema de meu celular e voltar correndo pra casa com meu vinho. Proponho um jogo mental, identificar a pessoa mais feliz que cruza a Ipiranga. Identifico uma mulher com uma menina de uns dois anos no colo e penso: é ela. Imediatamente percebo que atribui àquela mulher a personagem de mãe, e, além disso, atribuí a maternidade a irrefutável felicidade. Opa, opa... Recuo e penso no mito do amor materno e na história que está aí pra ser olhada. Sei que foi um lapso de confusão com a vivência com minha sobrinha mais velha. Não havia nada mais empolgante que estar com ela e participar de todas suas descobertas de criança. Então o sinal abre ( como o pensamento é rápido ) e eu continuo a observar. Olho um carro ao meu lado onde no vidro traseiro consta uma declaração de amor "Dezoito e Dedé". Imagino o Dezoito e a Dedé em uma tórrida paixão em que o ápice é marcar o vidro do carro. Que lindas, insanas, pequenas e gigantes declarações de amor. Penso: saudades de ficar feliz com uma faixa declarando amor ou uma pichação no muro... Coisas do tipo. Na minha cabeça Dezoito e Dedé estarão vivendo uma tórrida sexta de amor, onde todas as certezas existem e o amor é indiscutível. Sigo a Ipiranga com um sol se pondo. Contrastes entre o céu e os fios dos postes. Penso que é o mesmo céu de milhares de anos, o céu que tudo sabe. Vanilla Sky me vem a cabeça com seus sonhos lúcidos. Queria um hoje. Luzes de freio, muitas luzes de freio... Será que é uma metáfora da humanidade? Sei lá... E a gente de distrai? Cabeça de Psicólogo será um pouco diferente? Cheguei ao shopping e a voz metálica na cancela me fez sentir um tédio danado. Sem sonho lúcido, vamos lá. Seja como for a associação livre é mais uma pérola que Freud nos deixou.
Márcia Batista
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Pássaros na cabeça
Henri Lartigue
O que se sabe da vida é o não saber, e depois de milhares de
horas de insônia aprender que ela está aí para escapar, escorrer, na sua impossibilidade inegociável de ser segurada. Então melhor é
pegar cada hora com a beleza e a amargura que nos chega e seguir. Amanhã talvez não exista, existir também é mero ponto
de vista. Conheço muita gente que não se sabe morta e teme morrer. Alguns corações
pulsam, outros apenas executam sua função fisiológica de bombear o sangue. A vida
é o tempo com toda sua relatividade e grandeza, é o desnorteamento organizado, o trapézio sem
rede, a constante comunicação surda, a solidão de inevitavelmente ser um. É
preciso apreender a força das raízes, mas plantar pássaros na cabeça e quiça voar com
eles.
Márcia Batista
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
A ampulheta não para.
Sei
que ser humano é não caber na forma corpórea, é a busca constante de vazar, de
um jeito ou de outro precisamos transbordar pra respirar. Somos lâmina que corta ou cura, terror e
suavidade, punhos que servem a socos ou para articular um aperto de mãos. Temos
a nosso favor a liberdade de opção, mesmo que venha depois de tantas vezes
queimar, se debater, enlouquecer pela injustiça, se é que ela, a justiça, não é
mero acaso, lugar que nos colocamos. Transitar neste mar de contradições buscando a
exatidão é como buscar a morte. Quero acreditar que nossa matéria principal não
é a carne e sentir que sou maior que um corpo tem feito com que reveja o
tamanho das coisas. A proximidade com a morte sempre faz com que o gélido do
corpo que está ali imóvel, me sacuda violentamente e pense que a vida é só um
sopro, um vendaval de encontros que não podemos desperdiçar. Ser feliz é uma
ordem, uma busca, um parto para aqueles que se acomodaram na tristeza e cegaram
com o excesso de luz. Que a raiva e os tropeços possam ser transformados, pois
a ampulheta já virou e a areia não pode parar de escorrer.
Foto: Márcia Batista
Cachoeira do Sul
domingo, 26 de janeiro de 2014
Formas e forças
“E o que significa viver
senão justamente essa ousadia de preencher um molde que um dia então será
quebrado por nossos novos ombros, para que, livres, na nova transformação, nos
familiarizaremos com todos os seres magicamente arrebatados”?
Rilke
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