quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Drummond 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Lições




Não aprendi a colher a flor

sem esfacelar as pétalas.

Falta-me o dedo menino

de quem costura desfiladeiros.


Criança, eu sabia

suspender o tempo,

soterrar abismos

e nomear as estrelas.

Cresci,

perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
- Mia Couto, em "Idades cidades divindades". Lisboa: Editorial Caminho, 2007.

Lembrança Alada







Em alguma vida fui ave.

Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.
- Mia Couto, em "Idades cidades divindades". Lisboa: Editorial Caminho, 2007.


sábado, 4 de maio de 2019

Foto: Dorothea Lange


E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.
Clarice Lispector 




terça-feira, 16 de abril de 2019


Lídia
Uma alma em(canto)



Eu assim... Vejo-te de tão perto, longe.
Sei que parte cada dia um pouco, parte tão lindamente, sorrindo pra vida. Há anos te olho, de tão longe, perto, de tão perto, longe.  Tuas janelas verdes, vivas, abertas em constante ventania. Teus olhos nunca choram, agradecem a vida... Está tudo certo. Eu, de tão perto , de tantos erros não entendo teu certo, mas tu sorri. Sorri com o som da vida, tua barriga ri, gargalha a cada mínima faísca que te ascende, acende, ascende. Vejo teu corpo fragilizar e tua alma voar, tua transformação pássaro. A gente ri como duas velhas amigas de escola, tu com teus quase um século me chama de jovem, eu com quase meio século queria ter a sabedoria da tua poesia. Saímos e tu para em cada flor, eu reclamo, preocupa-me o entorno, mas sorrio por dentro com teus passos lentos e tua alma veloz. Sabe olhar o que importa, nunca perde uma piada, uma foto, um assunto ou gíria nova. Cuido de ti querendo ter o dom de te eternizar, pois tu já te eternizaste em mim. A gente combina de vir avisar a outra se existe outro lado, outra vida, outra forma de existir. Tu tens medo de fantasma, eu prometo que não virei num lençol branco, mas nos teus sonhos. Tu me diz que não vai com a morte, que terão que te levar a força, a mando dos filhos. Eu rio triste, a gente sabe que a morte não pede licença, mas digo que tu és eterna. A gente sabe e não sabe, no fundo todos cremos um pouco no eterno. Contigo eu aprendi um pouco mais de MPB, da Clara Nunes, da Ivone Lara. Comigo tu começou a adorar Felipe Catto, Jean Melgar, Ilse Lamper, rodas de samba. Compartilhamos tantas músicas olhando o gato amanhecer na janela do lado,  as caturritas migrarem. Já me encantei tantas vezes ao te ouvir cantar, já cantou tantas musicas que te pedi, mesmo não querendo, sempre canta. Te coloquei mil apelidos, tu ri de todos , tu nunca perde oportunidade do riso, tu nunca perde.  Já te vi doente e quis estar longe porque conheço demais teus sinais, a mudança dos teus olhos, mas penso que a única coisa que posso te dar é a presença. Eu fico, mas eu que não sei rezar me pego rezando por ti. Descobri que o ser humano é sempre criança, só depende de ter um lugar pra brincar. Não vemos nossa pele enrugar, nossas pernas falharem, nossa coluna curvar, nossas mãos perdendo a força e nossa Memória sucumbir.  A finitude é irrealizável, assim que tem que ser.
Vejo o tempo te surpreender diante do espelho, não crê que a vida foi tao rápida, pois a menina em ti ainda dança, ainda reencontra teus irmãos num infância cheia de vida e teu pai com a maquina fotográfica em passeios familiares. Pergunto dos teus sonhos, dos teus medos, dos teus gostos. Já te vi dançando na sala e eu gargalhava com tua beleza de ser criança de um século. Penso que nunca crescemos e buscamos a leveza da dança despretensiosa, do erro certo, da felicidade simples. Nos já demos comida aos pássaros de manha cedo, fomos advertidas pelo condomínio, não se pode alimentar os pássaros para não “sujar”o parapeito vizinho. Eu detestei a vizinha por isso, tu só disse que ela era uma infeliz e lamentou os pássaros não chegarem mais na janela. Eu sigo detestando a vizinha, talvez um dia consiga apreender tua sabedoria, talvez...
 Tu oras no teu silêncio, te ancora na tua fé. Eu creio em ti, senhora da vida, o verdadeiro milagre. Repete sempre que não se arrepende de nada sem ter noção da grandeza que é isso. Viveria tua vida tal qual foi vivida, és uma nietzschiana sem saber que o és. Tua sabedoria de não se saber sábia. 
Eu assim vejo a vida acontecendo em ti todos os dias. É tão longe te imaginar longe, então pego cada pedaço de ti e vou costurando em mim para que nunca partas, para que nunca me deixe sem ti. Cada passo teu me faz rever a vida, me faz pegar teus pés a tentar um novo caminho, me faz te querer reagindo contra o tempo. Eu sei, o tempo não negocia, mas eu humanamente te quero aqui, um pouco mais no meu tempo, sendo tu, me ensinando a ser Lídia, a ser esta bailarina da vida que apenas sorri porque sabe simplesmente a complexidade do existir. 

Amor, Lídia...


sábado, 23 de fevereiro de 2019

Lamento Sertanejo



Lamento Sertanejo
Dominguinhos


Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga e do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado

Por ser de lá
Na certa, por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão, boiada caminhando a esmo

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Congresso Nacional do Medo



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe 
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Carlos Drummond de Andrade