quarta-feira, 11 de julho de 2012

Fotografrar ou ressignificar...


"Revelações nascem do escuro
em varais de espera, em merguhos.
Tempos depois
luzes acendem imagens,
curas."

Além do Bem e do Mal





(Salvador Dali)

Nossas mentes rechaçam a idéia do nascimento de uma coisa
que pode  nascer  de uma  contrária, por  exemplo:  a verdade do
erro;  a  vontade do  verdadeiro da  vontade do erro;  o ato
desinteressado do egoísmo ou a  contemplação pura do  sábio,  da
cobiça. Tal origem parece impossível: pensar nisso parece
próprio de loucos. As realidades mais sublimes devem ter outro
origem, que lhes seja peculiar. Não pode ser sua mãe esse
mundo efêmero, falaz, ilusório e miserável, esta emaranhada,
cadeia de ilusões, desejos e frustrações. No seio do ser, no qual
não morrerá nunca, num deus oculto, na “coisa em si” é onde
deve se lobrigar seu princípio, ali e em nenhuma outra parte.

Nietzsche - Além do Bem e do Mal


Robert Capa
Detalhe: Picasso segurando o guarda-sol


Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
 
eles a ressuscitarão

O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais exista amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa ou um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja, pelo menos, o universo
E a mãe
Seja, no mínimo, a terra
A terra, a terra
                                                                                                      Mayakovsk





"Todo homem é comum mesmo não sendo. O não ser comum do homem parece estar em sua forma própria de ser comum. Em seu jeito singular de sofrer, brincar, envelhecer. Em sua necessidade de construir, simbolizar, criar. Um homem não deixa de ser comum mesmo entre letras, livros, máquinas, sistemas, signos. Um homem é sempre uma trajetória que declina. Que ascende, mas que declina. O comum do homem é sua aparição relâmpago, o seu constituir e o seu perecer. O comum do homem é sua necessidade de dizer, manifestar, inscrever, perpetuar. Ao mesmo tempo sua impossibilidade de permanecer. Todo homem constitui-se na tensão entre viver e morrer, entre dizer e calar, entre subir e descer. Mas, por razões extensas e difíceis, a história humana parece ter se ordenado em torno da vontade de não ser.
Não envelhecer, não sentir dor, não se cansar, não se aborrecer. O homem parece envergonhar-se de ser: pequeno, sensível, mortal, humano. E organiza-se em torno de um ideal de homem, sem corpo. O homem envergonha-se de seu corpo. Não de seu sexo ou de seu prazer, mas de suas vísceras, de seus excrementos, de seus sons e odores, de seu processo bioquímico, fisiológico, orgânico. O homem envergonha-se de morrer e vai acuando-se, escondendo-se, perdendo-se em torno de uma idéia, de uma imagem. Em sua luta por não ser comum, o homem tornou-se nenhum. Todo homem virou nenhum. Nenhum homem na rua, em casa. Nenhum homem na cama. Nenhum homem, mas um nome. O homem se reduziu a um nome. Não um nome próprio, mas um substantivo".

Viviane Mosé

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Delicadeza


Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore

Seu Lugar

Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde eu for, você vai, minha querida
Não temo o destino
Você é meu destino, meu doce
Não quero o mundo pois, beleza
Você é meu mundo, minha verdade
Eis o segredo que ninguem sabe
Aqui está a raiz da raiz
O broto do broto
E o céu do céu
De uma arvore chamada vida
Que cresce mais do que a alma pode esperar
Ou a mente pode esconder
E esse é o prodigio
Que mantem as estrelas a distancia
Carrego seu coraçao comigo
Eu o carrego no meu coraçao.
E.E. Cummings

segunda-feira, 2 de julho de 2012

"Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós. Não temos amado acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não entendemos porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada. Não nos temos entregues a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. temos evitado cair de joelhosn diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúmes e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Temos disfarçado com falso amor nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos, e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público o que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia."

 Clarice Lispector