quinta-feira, 26 de julho de 2012

Fridas


''Origem das duas Fridas. Recordação. Devia ter 6 anos quando vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina de minha idade. (...) Não me lembro de sua imagem, nem de sua cor. Porém sei que era alegre e ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse nenhum peso. Eu a seguia em todos os seus movimentos e contava para ela, enquanto ela dançava, meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Porém ela sabia, por minha voz, de todas as minhas coisas...''

Diário de Kahlo, sobre a tela As Duas Fridas

quarta-feira, 25 de julho de 2012

 



 "É que tem mais chão nos meus olhos
do que cansaço nas minhas pernas,
mais esperança nos meus passos
do que tristeza nos meus ombros,
mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça."

Cora Coralina

Viver...Vi - ver - ver - vi.


Pensando na palavra Viver constatei uma obviedade disfarçada, querendo passar desapercebida: Viver é o verbo ver em tempos verbais diferentes. Esta descoberta fez todo o sentido pra mim, que há tanto tempo invejo vagalumes e reinvento as estrelas. Ver é o sentido protagonista, é por onde se come o mundo. Há de ser a retina aquela que apresenta a vida pra nossa alma. Perder formas, traços, letras, textos, cores, espaços, e, principalmente, perder de vista o rosto dos afetos é angústia daquelas que fazem a gente não caber na pele, é o estraçalhamento do vivente. A câmara escura só é habitável por ser o nascedouro das imagens, viver por lá é ficar prisineiro do avesso da razão de ser, é não cumprir seu destino de parir imagens. Olhar é respirar pelos olhos, é ser vão para o milagre que é significar o que se vê, o que se vi-ve (ê). Ver é estar em fotossíntese, é raptar o mundo pra dentro da gente.

Márcia Batista

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Reinvenção


"Para Nietzsche criar, mais do que um gesto individual, é um processo de integração e participação na vida. A vida cria em suas constantes transformações, em seu eterno jogo de vida e morte. Ao homem cabe dizer sim ou não a este processo, isto o define como homem. Ao dizer sim ao que os gregos chamavam de devir, o vir-a-ser constante das coisas, o homem se vê inserido em um processo que necessariamente leva à criação. Criar é suportar as contradições e intensidades da vida no corpo, é transformar em signo este movimento excessivo que é viver. Mas o rumo que nossa cultura ocidental tomou foi outro, ela separou e opôs o bem e o mal, o corpo e alma, o acerto e o erro, o belo e feio. Estimular a criatividade envolve, mais do que identificar gênios criativos, reconstruir, reinventar os laços do homem com a vida."

 Viviane Mosé

Dedicatória

Delicado curta inspirado e concretizado em Manoel de Barros.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Tudo que não invento é falso


Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante."

Manoel de Barros

A Palavra

Foto: Robert Doisneau

A palavra é uma roupa que a gente veste.
Uns usam palavras curtas. Outros usam roupa em excesso.
Existem, os que jogam palavra fora. Pior são os que usam em desalinho.
Uns usam palavras raras. Poucos ostentam palavras caras.
Tem quem nunca troca. Tem quem usa a dos outros.
A maioria não sabe o que veste. Alguns sabem e fingem que não.
E tem quem nunca usa a roupa certa pra ocasião.
Tem os que se ajeitam bem com poucas peças.
Outros se enrolam em um vocabulário de muitas.
Tem gente que estraga tudo que usa. E você?
Com quais palavras você se despe?

Viviane Mosé