terça-feira, 21 de agosto de 2012

Extra Sísmico


Ando a não andar, a cismar meus dias em sístoles.
Sismos que fragmentam todo o ser que sou, dos órgãos à pele, da pele aos ossos.
A flertar abismos, a querer abismar-se. 
De tão perto a duvidar não ser eu o próprio precipício.
Precipitada em ser além de mim, outra que acomode melhor a alma que trago comigo.
A cair, e ir, a desfalecer, e ser...
A morrer tantas vezes pra alargar a vida
Pra alagar a aridez de uma alma que se rememora líquida.

Márcia Batista


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz?  Em vão... Tudo esvaído

Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Tempo (ral)





O tempo escorre da gente, e assim vai rindo do sonho humano de capturá-lo. Passa sem passar, fica sem pedir, não obedece relógios, seu senhor é o sentir. Congela e corta na saudade, voa no encontro, é sempre agora no amor, é longo e sem fim na dor, é cárcere na perda. O tempo corre da gente, não nos pertence, não somos do tempo contado, somos seres do tempo sentido. É ele que mostra a medida do mundo, o tamanho das almas, a força dos ventos. É ele que lambe as feridas, que arranca as vísceras, que deforma o olhar, que reforma o olhar. Armazém das horas, morada de amores, cores, dores e odores.
O tempo morre na gente, enterra palavras, desperta silêncios, embaralha a lógica do que foi, do que é e do que será. O tempo não se conjuga, não se guarda, não se dobra, é o dono absoluto das sombras e do sol. É ele o guardador de sementes, é nele que se adormece, é dele que se renasce, é por ele que se floresce.
Márcia Batista

Tu eras também uma pequena folha


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

domingo, 29 de julho de 2012

 Robert Doisneau

O que me acontecia? Nunca saberei entender mas há de haver quem entenda. E é em mim que tenho que criar esse alguém que entenderá. 

Clarice Lispector - A Paixão Segundo G.H.

Sobre dias lindos


                Ouvir a afirmação "que dia lindo" sempre me gerou certa angústia. Um dia lindo é como uma intimação, destas levadas por oficial de justiça e tudo, para sair imediatamente de casa sem direito a bagagens ou telefonemas, e consumir o dia. Mas a questão é que nada parece ser suficiente diante da grandiosidade de um belo dia. Certa vez resolvi dividir esta agonia com uma amiga, daquelas que a gente confia as insanidades dos pensamentos. Para minha grata surpresa e absolvição ela também sentia igual, a terrível limitação de corresponder a um dia lindo, uma meliante a não cumprir a ordem de viver.  Chegamos a uma conclusão engraçada, embora fora da lei: um dia lindo é merecedor de um streeptease, de um encontro com a própria pele, e assim correr nua pelas ruas, pelos campos, sem rumo, sem roupas, sem nada além da beleza da hora. Assim poderíamos nos fundir ao dia, sermos uma coisa só: terra, sol, corpo, vento, água e fogo. Este desejo atávico nos encontra vez ou outra, desempoeira nossos corpos domesticados e sacode nossa frágil infante civilidade. Percebe-se então o perigo de um dia lindo, é o toque de tambores que nos chama a transgredir as boas maneiras conquistadas e ser um tanto bicho, um tanto livre, um tanto chão, um tanto céu, um tanto Deus, um tanto nós. 

Márcia Batista

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Fridas


''Origem das duas Fridas. Recordação. Devia ter 6 anos quando vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina de minha idade. (...) Não me lembro de sua imagem, nem de sua cor. Porém sei que era alegre e ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse nenhum peso. Eu a seguia em todos os seus movimentos e contava para ela, enquanto ela dançava, meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Porém ela sabia, por minha voz, de todas as minhas coisas...''

Diário de Kahlo, sobre a tela As Duas Fridas