Palavras pretendem dissipar o caos que frequentemente toma conta da gente. É preciso por vezes dispensar palavras e tocar o mais profundo, a pele. É dela tudo que a memória pode alcançar e que a língua tenta incansavelmente traduzir. Eu gostaria de comunicação "poro" e falando o "poronês"poder trocar de sentido com o outro que desesperadamente busca um pouco de compreensão. Eu sinto medo e a cada um que verbalizo medo, meu medo já se transformou na ideia de medo que cada um tem. E assim se alarga, se encolhe, vira pânico, vira medo de fantasmas, de baratas, de tsunamis, de doenças, de sair sem maquiagem. Os medos adultos são mais complexos, guardam em si a vergonha da fraqueza, mas eu penso que sentir medo é pra quem sabe ser forte. O amor é o maestro do medo, então queremos a vida para viver nossos amores, sem eles o existir seria de plástico, sem cheiro, sem cor, sem som de risadas conhecidas e vozes que fazem a gente ser atemporal. Sem eles não haveria para quê voltar, a gente sempre volta por amor.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Dia que balança
E a vida balança... Embala, repara,
Vai, volta, cai, solta...Dança.
E a vida balança...Pesa,
junta, separa...Lança.
E a vida balanço...Pensa, "despensa", dispensa,
Avança, recua, estica, esmaga.
Trapézio de tempo,
Vento do salto.
Márcia Batista
sábado, 27 de outubro de 2012
Apanhador de Desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosta das palavras
fatigadas de informar.
Não gosta das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
sábado, 29 de setembro de 2012
Espaço Curvo e Finito
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
José Saramago
sábado, 22 de setembro de 2012
"Dentro da minha barriga mora um pássaro"
"Quantos seres sou eu para buscar sempre do outro ser que me habita as
realidades das contradições? Quantas alegrias e dores meu corpo se abrindo como
uma gigantesca couve-flor ofereceu ao outro ser que está secreto dentro de meu
eu? Dentro de minha barriga mora um pássaro, dentro do meu peito, um leão. Este
passeia pra lá e pra cá incessantemente. A ave grasna, esperneia e é
sacrificada. O ovo continua a envolvê-la, como mortalha, mas já é o começo do
outro pássaro que nasce imediatamente após a morte. Nem chega a haver intervalo.
É o festim da vida e da morte entrelaçadas."
Lygia Clark
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
DESatando nóS
Quantos nós a morar em um, quanto tempo escorre pra desatar o enleio do desassossego? Como respirar neste encolher constante, neste trepidar de chão a cada passo, a cada espaço que se vai...
Quantos vacilos e solavancos aguenta a alma? Quantas almas é preciso pra aguentar um corpo? Quanto amor e fúria a andar irmanamente nestes descaminhos da gente, quantas febres a constituir o que somos...E o que somos?
Febres de ilhas em mar aberto, febres de luz em escuridões de desentendimentos, febres de dores, febre de amores, febres de cores neste monocromático existir,febres de ser, febres de ter...
Quantos nós a apertar a garganta, a selar relações, a cerrar idas e vindas, a crispar decisões, a desatinar orações, a coagular vidas...
Quanta falta no excesso de presenças e adoecimentos em solidões secretas.
Quanto de nós se esvai a cada hora, quando ausentes de si morremos em vida, desatamos em prantos, mas permanecemos em nó.
Márcia Batista
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